quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Infância de suburbano IV

A minha rua também era privilegiada em termos de espaço, eu morava numa rua que bifurcava, (bifurcar – v.t.d. separar (-se) em dois ramos) então assim que a rua foi asfaltada, os “caras grandes”, era assim que nós crianças tratávamos os mais velhos, fizeram a marcação de uma quadra de futebol de salão, podíamos jogar bola sem problemas, pois os carros não passavam na “quadra”, era assim que chamávamos esse espaço, quadra. Durante muito tempo não liguei muito, ia jogar bola mais ficava olhando as pipas no alto, não dava a menor atenção ao jogo, só depois de muito tempo é que me transformei no maior fominha de bola da rua. Todo esse espaço proporcionava as crianças várias possibilidades de brincadeiras, uma das melhores era jogar linha de passe na porta de um amigo nosso, que tinha na calçada um poste e uma árvore com uma distância ótima para servir de gol. Durante boa parte da tarde não dava para jogar na quadra, sol e asfalto não combinam muito, tínhamos que esperar o sol baixar, enquanto isso, linha de passe. O único problema é que as duas vizinhas desse meu amigo furavam todas as bolas que cainham no seu quintal. Isso era ruim, tomávamos o maior cuidado, mais às vezes não tinha jeito, a bola caía lá, e já era. Foram muitas bolas, porém um dia demos o troco. Era dia de São Cosme e São Damião, só um real suburbano sabe o que isso significa. Doces, muitos doces, e principalmente a farra para pega-los, acho que essa era a melhor parte, conseguir pegar o maior número de sacos de doce, para isso valia tudo, já vi amigo meu se passando por doente mental para furar a fila, não tinha dona de casa que não se comovia com um garoto segurando no pescoço do outro, todo “tordinho”, babando pelo canto da boca, sempre funcionava. Durante um dia de São Cosme e São Damião, eu e meus amigos decidimos nos vingar de todas aquelas bolas furadas, foi um decisão em grupo, nego até o fim que a idéia tenha partido de mim. Nosso “plano” foi o seguinte, no subúrbio existiam pessoas que davam doces com hora marcada, eram distribuídos cartões com o local e horário para pegar os doces, quem não tinha cartão não adiantava nem chegar perto. Fizemos isso, compramos cartões e preenchemos com endereço da nossa grande amiga furadora de bola, alguns se encarregaram de distribuir pelo bairro, no horário mercado sentamos e aguardamos. Foi a maior zona! O primeiro que chegou chamou pela dona da casa e foi prontamente posto para correr, diga-se de passagem, uma pessoa que fura bolas só porque elas caem no seu quintal não deve ser muito simpática. O segundo e o terceiro também foram postos para correr, mais de repente já havia um grande grupo, para nós era uma “multidão”, acho que distribuímos entorno de 50 cartões, imaginem as pessoas na porta gritando e balançando o portão: “queremos doce, queremos doce”. Esqueci de comentar que essa bela “senhora” tinha uma espingarda, que foi algumas vezes mostrada para nós durante as vezes em que jogávamos bola perto da casa dela. Não deu outra, na hora do tumulto, aquela gritaria, a molecada xingando, surge à bela “senhora” com a espingarda, correria total, gente se escondendo, um verdadeiro caos, e ficou esse jogo de ameaça, ela dizendo que ira atirar e a galera querendo doce, não deu outra, chamaram a “joaninha”, (nome popular dado aos fuscas que faziam parte da frota de carros de polícia), tomaram a arma dela, conversa daqui, alguns vizinhos interferiram, e após alguns momentos tensos chegaram a conclusão que não havia doce, que tudo não passava de um “mal entendido”. Infelizmente, nem eu e nenhum dos amigos tem detalhes maiores, pois apenas observamos de uma distância segura, porém a historia vazou e a brincadeira foi atribuída a minha pessoa e a de um amigo meu, correu o boato que nós éramos os “cabeças” de tudo. Imaginem só, atribuírem uma maldade dessas a um simples garoto de subúrbio.

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